Todas as coisas ditas no silêncio

Adoro um provérbio Japonês que diz: "As palavras não ditas são as flores do silêncio"!


Essa linda definição da preciosidade e da delicadeza do que não é dito me fez refletir sobre as palavras e a ausência delas.


No ano passado, despretensiosamente vagando pelos corredores da livraria, tombei com um livro transformador: "Silêncio na era do ruído" do escritor norueguês Erling Kagge.


Kagge é também explorador e no livro relata o seu encontro com o silêncio durante as longas expedições que fez pelo Mundo e nos convida a buscar o silêncio mesmo estando mergulhados em tantos barulhos e ruídos - externos e internos.


No último texto do blog falei sobre como o Chá me ajudou a encontrar o meu silêncio interior, mas o que Kagge propõe no seu livro é ainda mais belo: o compartilhar o silêncio!



A beleza de compartilhar o silêncio


Sempre que estamos na presença de alguém nos sentimos desconfortáveis em nada dizer, nos sentimos constrangidos e logo tratamos de falar qualquer amenidade para quebrar aquele momento de silêncio.


Quando estamos diante de uma grande emoção ou beleza, sentimos a necessidade pulsante de expressar tudo isso para os outros através de palavras, mas, como diz Kagge, "as palavras estabelecem limites para o que podemos vivenciar."


As palavras não conseguem expressar as grandes emoções e nem definir o poder da beleza com toda a sua intensidade porque, no fundo, essas coisas são indefiníveis e é na simplicidade do silêncio que elas encontram abrigo.


No início desse ano vivi experiências assim enquanto viajava sozinha pela Patagônia Argentina.


Estive em lugares e vivi momentos que jamais conseguiria definir e o fato de estar sozinha me fez entender que ainda que estivesse com alguém ali, frases do tipo "olha que lindo" ou "que coisa incrível" seriam apenas para quebrar a magia do momento tentando explicar o inexplicável.


A arte é também um grande convite para o silêncio. Silenciamos porque a emoção que a beleza provoca em nós não tem explicação.


De 14 de março a 31 de maio de 2010 a artista performática iugoslava Marina Abramovic passou 736,5 horas sentada no MoMA em Nova York olhando 1.545 visitantes nos olhos sem dizer qualquer palavra. Quem teve a oportunidade de ver o documentário "The Artist is Present" entende o poder da conexão do silêncio.




Performance "The Artist is Present" de Marina Abramovic no MoMA em NY

No meu trabalho como Mediadora de Conflitos percebi, ainda, o quanto o silêncio também é uma grande demonstração de empatia, de compaixão e de acolhimento. Muitas vezes aquele que está ali não quer falar nem ouvir conselhos, quer apenas partilhar a sua dor em silêncio.


Em muitas situações vi as pessoas se reconstruindo, se perdoando, se curando, sem qualquer palavra, apenas conectadas pela energia poderosa do silêncio, do que não precisa ser dito para ser entendido.




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